Na sua crónica mais recente, Carolina Pereira fala-nos da Praia da Cortegaça e dos seus anacronismos...
É sem duvida uma das minhas praias de eleição na quase (e deveria aparecer um “pé de galo”) perfeita costa portuguesa...
Não estou com pressa em escrever, confesso-vos.
Por isso, caso estejam à espera de um curto, sucinto e ténue desfecho, passem à crónica seguinte e voltem “aqui” mais tarde, com mais conhecimento na paciência.
Cortegaça, aquela que aqui escrevo, pode esperar.
Nesse pequeno paraíso à beira-mar está encorpada a elegância e frigidez da calma, a saborosa e paciente hospitalidade, e talvez com melhor particularidade, a sensata inocência em se manter meramente igual a si.
Eu sei que não sou Kapuscinski, Chatwin, Naipaul, Theroux, Ella Maillart ou Palin… sei que nem estou lá perto.
Tenho essa sensação que, embora talvez seja contraditório, não me amarga o coração ou incómoda.
No entanto, gostaria de talvez levar uma vida parecida sendo eu mesma e escrevendo a cada palavra com um nível superior a mim.
No vocabulário ignorante e para outros que não eu e mais alguns, sou como que uma ‘imitadora’ (ou ‘wanna be’, como queiram chamar).
Ou seja, também afundo mochila às costas, agarro no caderno e numa caneta, na prancha na procura de ondas e no usufruir da costa, calço os ténis pronta para a jornada e descoberta, dou de mim, dedico-me no que melhor sei fazer para transformar o mundo em algo preferível do que encontrei…mas… não sou X, nem Y.
Sou só eu e que grande azar o meu… ou talvez não.
Qualquer um pode escrever. Qualquer um pode agarrar as nuvens e pisar a lua.
Todos nascemos como uma página em branco, durante a vida temos de ter bonança para adquirir conhecimento, temos de ter perseverança para tentarmos que a página da nossa existência englobe mudanças positivas noutras soltas que voam por ai.
Isto é o que eu sou. Tu podes ser o que quiseres, mas tens de querer o que fores (tal como diria Fernando Pessoa).
Todo o tempo é tempo de formarmos realidades.
A verdade, queiram aceitar ou não, queiram desmoralizar-nos ou não, é que o futuro somos nós (todos nós), o futuro é de quem está cá hoje, de quem lê estas letras, de quem não lê estas letras, do rico de hoje, do deitado nas ruas, o futuro é teu.
Por isso é que ninguém pode ser abandonado, todos são essenciais.
Por isso é que não há nada que nos possam impingir que será assim, tudo será o que nós quisermos se o formos.
Por isso é que temos o compromisso de agir.
A verdadeira inteligência está no fazer e no ser, nunca no ter.
Ninguém me diga que não sou capaz de fazer alguma coisa, que ninguém me diga que nunca chegarei a algum lado, nem que algo é impossível.
Aqui, na Cortegaça, temos o melhor exemplo do que é chegar longe mantendo-se igual, fiel a valores. Se cá vieres inspeccionar, pensarás que em nada está evoluída, poderás pensar que as gentes de cá são meros pescadores ou mentes inactivas, poderás cair no erro costumeiro de subestimar pela aparência.
Não há que parecer, há que ser.
Terás de vir, ficar, e entender.
Quando cheguei fui prontamente tentar saber onde eram os melhores picos, se existiam segundas opções, andar à procura do que seria um possível ‘secret spot’.
Depois de surfar umas longas e perfeitas direitas, quando sai, encontrei uma placa que dizia “Mantenha-se afastado deste local”, no entanto, atrás desse local via-se uns bons sets a chegar, umas paredes estáveis, desertas.
Não fosse a mente de qualquer wanna be de intrépido reacendida a cada desafio e não teria passado essa placa, facto é que efectivamente é.
Efeito: mais direitas, mais longas, mais perfeitas. Surfava sem fato.
O oceano escorregava-me pelos pés, empurrava-me à presença, a parede de água limpa felicitava-me com suaves apertos de mão e massajava-me as costas e a brisa ia comunicando da sua presença agradavelmente.
A frigidez da calma, que é tão precisa na tua evolução como ser humano.
A saborosa e paciente hospitalidade, que tanto irás querer dos outros em qualquer situação da tua vida.
A sensata inocência em se manter meramente igual a si, que não é um azar, é um mérito.